terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

     

Relembrando Allan Kardec
A Providência

Seja ou não assim no que concerne ao pensamento de Deus, isto é, quer o pensamento de Deus atue diretamente, quer por intermédio de um fluido, para facilitarmos a compreensão à nossa inteligência, figuremo-lo sob a forma concreta de um fluido inteligente que enche o universo infinito e penetra todas as partes da criação: a Natureza inteira mergulhada no fluido divino. Ora, em virtude do princípio de que as partes de um todo são da mesma natureza e têm as mesmas propriedades que ele, cada átomo desse fluido, se assim nos podemos exprimir, possuindo o pensamento, isto é, os atributos essenciais da Divindade e estando o mesmo fluido em toda parte, tudo está submetido à sua ação inteligente, à sua previdência, à sua solicitude. Nenhum ser haverá, por mais ínfimo que o suponhamos, que não esteja saturado dele. Achamo-nos então, constantemente, em presença da Divindade; nenhuma das nossas ações lhe podemos subtrair ao olhar; o nosso pensamento está em contacto ininterrupto com o seu pensamento, havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo.

Para estender a sua solicitude a todas as criaturas, não precisa Deus lançar o olhar do Alto da imensidade. As nossas preces, para que ele as ouça, não precisam transpor o espaço, nem ser ditas com voz retumbante, pois que, estando de contínuo ao nosso lado, os nossos pensamentos repercutem nele. Os nossos pensamentos são como os sons de um sino, que fazem vibrar todas as moléculas do ar ambiente.

Longe de nós a idéia de materializar a Divindade. A imagem de um fluido inteligente universal evidentemente não passa de uma comparação apropriada a dar de Deus uma ideia mais exata do que os quadros que o apresentam debaixo de uma figura humana. Destina-se ela a fazer compreensível a possibilidade que tem Deus de estar em toda parte e de se ocupar com todas as coisas.
Allan Kardec
KARDEC, Allan. “A Gênese – Os milagres e as predições segundo o Espiritismo”. 34ª.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB. Capítulo II, Deus, itens 24 e 25.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Questões preliminares

A. É possível identificar com nitidez as correntes mentais que assimilamos?
Sim. Nosso pensamento vibra em certo grau de frequên­cia, a concretizar-se em nossa maneira especial de expressão, no cír­culo dos hábitos e dos pontos de vista, dos modos e do estilo que nos são peculiares. Diz o instrutor Aulus que basta nos afeiçoemos aos exercícios da meditação, ao estudo edifi­cante e ao hábito de discernir para compre­endermos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espiri­tuais que passamos a assimilar. (Nos Domínios da Mediunidade, cap. 5, págs. 50 e 51.) 
B. Como podemos definir a tentação?
Lembremos que a mediunidade é um dom inerente a todos os seres, como a faculdade de respirar. Cada criatura assimila, pois, as forças superiores ou inferiores com as quais se sintoniza. Esse o motivo pelo qual Jesus reco­mendou-nos oração e vigilância para não cairmos nas sugestões do mal, porque – no dizer de Aulus –  a tentação é o fio de forças vivas a irradiar-se de nós, cap­tando os elementos que lhe são semelhantes e tecendo, assim, ao redor de nossa alma, espessa rede de impulsos, por vezes irresistíveis. (Obra citada, cap. 5, págs. 50 e 51.)
C. Pode um processo de vampirização perdurar por vários anos?
Sim. André Luiz refere-se a um caso assim, de um homem que desencarnara em plena vitalidade, depois de festiva lou­cura e sem o menor sinal de habilitação para conchegar-se às verdades do espírito. Desenfaixando-se da veste carnal, com o pensamento enovelado à paixão por uma mulher que sintonizou com ele, a ponto de retê-lo junto de si com aflições e lágrimas, passou a vampirizar-lhe o corpo. Desarvorado com a perda do corpo físico, adaptou-se ao organismo da mulher amada, que passou a obsidiar, nela encontrando novo instrumento de sensação, pois via por seus olhos, ouvia por seus ouvidos, muitas ve­zes falava por sua boca e vitalizava-se com os ali­mentos por ela uti­lizados. E nessa simbiose viviam já cinco anos suces­sivos, produzindo na mulher perturbada desequilíbrios orgânicos de vulto. (Obra citada, cap. 6, págs. 53 a 55.)
Texto para leitura 
19. Como a assimilação mental se dá - André compreendia assim, uma vez mais, que somos naturalmente vítimas ou beneficiários de nossas pró­prias criações, segundo as correntes mentais que projetamos, escravi­zando-nos a compromissos com a retaguarda de nossas experiências, ou libertando-nos para a vanguarda do progresso, conforme nossas delibe­rações e atividades, em harmonia ou em desarmonia com as Leis Eter­nas... Aulus comentou, na sequência, a comunhão de pensamentos que se verificou entre Clementino e Raul Silva, no momento da prece. "Vimos aqui – disse ele – o fenômeno da perfeita assimilação de correntes mentais que preside habitualmente a quase todos os fatos mediúnicos. Para clareza de raciocínio, comparemos a organização de Silva, nosso companheiro encarnado, a um aparelho receptor, quais os que conhecemos na Terra, nos domínios da radiofonia. A emissão mental de Clementino, condensando-lhe o pensamento e a vontade, envolve Raul Silva em profu­são de raios que lhe alcançam o campo interior, primeiramente pelos poros, que são miríades de antenas sobre as quais essa emissão adquire o aspecto de impressões fracas e indecisas. Essas impressões apoiam-se nos centros do corpo espiritual, que funcionam à guisa de condensado­res, atingem, de imediato, os cabos do sistema nervoso, a desempenha­rem o papel de preciosas bobinas de indução, acumulando-se aí num átimo e reconstituindo-se, automaticamente, no cérebro, onde possuímos centenas de centros motores, semelhante a milagroso teclado de ele­troímãs, ligados uns aos outros e em cujos fulcros dinâmicos se pro­cessam as ações e as reações mentais, que determinam vibrações criati­vas, através do pensamento ou da palavra, considerando-se o encéfalo como poderosa estação emissora e receptora e a boca por valioso alto-falante". Esses estímulos se expressam ainda pelo mecanismo das mãos e dos pés ou pelas impressões dos sentidos e dos órgãos, que trabalham na feição de guindastes e condutores, transformadores e analistas, sob o comando direto da mente. (Cap. 5, págs. 49 e 50) 
20. O pensamento - Estaria aí a técnica do próprio pensa­mento? A essa pergunta de Hilário, o Assistente respondeu: "Não tanto; o pensamento que nos é exclusivo flui incessantemente de nosso campo cerebral, tanto quanto as ondas magnéticas e caloríficas que nos são particula­res, e usamo-lo normalmente, acionando os recursos de que dispomos". Hilário ponderou então não ser tão fácil estabelecer a di­ferença entre a criação mental que nos pertence e a que se nos incor­pora à cabeça, ao que Aulus replicou: "Sua afirmativa carece de base. Qualquer pessoa que saiba manejar a própria atenção observará a mu­dança, de vez que o nosso pensamento vibra em certo grau de frequên­cia, a concretizar-se em nossa maneira especial de expressão, no cír­culo dos hábitos e dos pontos de vista, dos modos e do estilo que nos são peculiares". Lem­brando então que possuímos uma vida mental quase sempre parasitária enquanto refletimos e agimos com os preconceitos, a moda ou os costu­mes estabelecidos, advertiu: "Basta nos afeiçoemos aos exercícios da meditação, ao estudo edifi­cante e ao hábito de discernir para compre­endermos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espiri­tuais que passamos a assimilar". Aulus as­severou que a mediunidade é um dom inerente a todos os seres, como a faculdade de respirar, e cada criatura assimila as forças superiores ou inferiores com as quais se sintoniza. É por isso que Jesus reco­mendou-nos oração e vigilância para não cairmos nas sugestões do mal, porque "a tentação é o fio de forças vivas a irradiar-se de nós, cap­tando os elementos que lhe são semelhantes e tecendo, assim, ao redor de nossa alma, espessa rede de impulsos, por vezes irresistíveis". E, por fim, propôs: "Estudemos trabalhando. O tempo utilizado a serviço do próximo é bênção que ente­souramos, em nosso próprio favor, para sempre". (Cap. 5, págs. 50 e 51) 
21. Um caso de vampirização - No recinto da sessão, os serviços desdo­bravam-se, harmoniosamente, quando três guardas espirituais entraram na sala, conduzindo infeliz irmão ao socorro do grupo. Era infortunado soltei­rão desencarnado que não guardava consciência da própria situa­ção. In­capaz de enxergar os vigilantes que o traziam, caminhava à ma­neira de um surdo-cego, impelido por forças que não conseguia identi­ficar. Ele desencarnara em plena vitalidade, depois de festiva lou­cura: letal in­toxicação cadaverizou-lhe o corpo, quando não possuía o menor sinal de habilitação para conchegar-se às verdades do espírito. Desenfaixando-se da veste carnal, com o pensamento enovelado à paixão por uma mulher que sintonizou com ele, a ponto de retê-lo junto de si com aflições e lágrimas, passou a vampirizar-lhe o corpo. Integral­mente desarvorado com a perda do corpo físico, adaptou-se, porém, ao organismo da mulher amada, que passou a obsidiar, nela encontrando novo instrumento de sensação, pois via por seus olhos, ouvia por seus ouvidos, muitas ve­zes falava por sua boca e vitalizava-se com os ali­mentos por ela uti­lizados. Nessa simbiose viviam já cinco anos suces­sivos, mas a moça perturbada acusava então desequilíbrios orgânicos de vulto. Como a do­ente solicitou ajuda espiritual, as entidades socor­ristas deveriam prestar ali duplo socorro. Para que se curasse das fo­bias que a assal­tavam, como reflexos da mente dele, que se via apavo­rado diante das realidades espirituais, era necessário o afastamento dos fluidos que a envolviam. Os condutores, seguindo as determinações de irmão Clemen­tino, localizaram o sofredor ao lado de Dona Eugênia. O mentor espiri­tual aproximou-se dela e aplicou-lhe forças magnéticas sobre o córtex cerebral, depois de arrojar vários feixes de raios lu­minosos sobre ex­tensa região da glote. Eugênia (alma) afastou-se então do corpo, man­tendo-se junto dele, a distância de alguns centímetros, enquanto que, amparado pelas entidades, o visitante sentava-se rente, inclinando-se sobre o equipamento mediúnico ao qual se justapunha, à maneira de al­guém a debruçar-se numa janela. (Cap. 6, págs. 53 a 55) 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A AUTORIDADE PATERNA
O amor materno e autoridade paterna são dois elementos essenciais ao bom equilíbrio das relações familiais.
            Releva frisar que mãe e pai não estão dissociados em suas funções. Pelo contrário, à mãe cabe também certa autoridade sobre os filhos, assim como nada impede que o pai manifeste ternura para com eles.
            A separação que aqui se faz visa apenas enfatizar isto: o que o filho mais espera e precisa da mãe é o amor; do pai, a autoridade.
            Autoridade é a palavra derivada de autor, deixando claro que essa prerrogativa é inerente ao autor. E o caso do pai, autor da vida do filho.
            Pode ele delegar parte de sua autoridade a outras pessoas, durante algum tempo e no que tange a certos aspectos da educação do filho. Permanece, porém, a instância de apelo supremo.
            Isto é verdadeiro, não apenas do ponto de vista jurídico, mas igualmente do ponto de vista psicológico. Deixe a criança de sentir acima dela a proteção da autoridade paterna e seu equilíbrio emocional será afetado, com prejuízo, inclusive, para a sua maturidade.
            A criança detesta, quase sempre, aqueles que a tiranizam, pois gosta de ser tratada com moderação e justiça; mas, por outro lado, despreza e agride o pai frouxo e piegas cuja incapacidade a priva de um apoio que deseja e lhe é indispensável.
            Sim, a par da liberdade, sem a qual não poderia auto-afirmar-se, a criança necessita, também, da autoridade para que seja orientada nos seus julgamentos e saiba disciplinar a própria vontade.
            Se contar com a preciosa ajuda da autoridade, ela evoluirá na fase inicial, instintiva, em que busca simplesmente o prazer através da satisfação de suas necessidades, para a outra fase, adulta, em que lhe caberá enfrentar as vicissitudes da vida, nem sempre isenta de dificuldades e sofrimentos.
            Sem isso, manter-se-á em dependência infantil, sem conseguir ajustar-se aos grupos sociais em que será obrigada a viver, ou melhor, a conviver, criando a tudo instante condições de atrito com os semelhantes.
            Pais existem que, ultrapassando os limites da autoridade, exercem um domínio absoluto e cruel sobre os filhos, não lhes permitindo a menor discussão a respeito de suas ordens, que exigem sejam cumpridas rigorosamente, valendo-se dos métodos repressivos da ameaça, da surra, da crítica mordaz e humilhante, das proibições sistemáticas, etc.
            O máximo que conseguem com essa maneira de agir é uma submissão cega, sem consentimento interior, o que fará dos filhos indivíduos tímidos e gaguejantes, com fortes sentimentos de inferioridade, ou então revoltados, futuros tiranos da própria prole.
            Outros, em contraposição, seja por comodismo, seja por fraqueza, não exercem a menor autoridade sobre os filhos: deixam-nos à solta, permitindo-lhes tudo, satisfazendo a todos os seus desejos, numa atitude de superindulgência que, longe de traduzir bondade, o que evidencia é falta de amor, ou, pelo menos, indiferença pela sua sorte.
            Este tipo de educação, está provado, só pode tornar as pessoas incontestáveis, exigentes, egoístas, incapazes de oferecer a menor cooperação a quem quer que seja. Pior ainda: favorece os desregramentos e conduz à libertinagem, principais fatores da delinqüência em todos os tempos.
            Autoridade legítima é o processo pelo qual o pai ajuda o filho a crescer e a amadurecer, para que chegue à autonomia sabendo que a liberdade tem um preço: a responsabilidade. É a maneira pela qual o pai conduz o filho à auto-realização, desenvolvendo-lhe as potencialidades, sem entretanto, exigir mais do que ele possa dar, respeitando-lhe as limitações.
            É, sobretudo, força moral que o pai deve ter sobre o filho, baseada na admiração que lhe desperta, por se constituir um modelo digno de ser imitado.
            Em suma, a verdadeira autoridade jamais se impõe pela violência. É uma decorrência natural das qualidades paternas, entre as quais se destacam as seguintes:
1)    Ser autêntico, isto é, conhecer o papel que lhe cabe no lar e exercê-lo com segurança e continuidade.
2)    Ser justo, tratando todos os filhos com igual solicitude, sem nunca demonstrar preferência ou aversão por nenhum.
3)    Ser um educador, castigando quando preciso, mas sabendo também desculpar, valorizar e incentivar.
4)    Ser coerente, mantendo seu ponto de vista acerca do que lhe pareça certo ou errado, evitando proibir um dia e deixar fazer no outro.
5)    Ser cordial, promovendo o afeto, a estima e a camaradagem entre os familiares.
6)    Ser compreensivo, superando os conflitos e mantendo seu amor ante os erros dos filhos.
7)    Ser clarividente, sabendo discernir entre o que é essencial e o que é secundário.
8)    Ser conciliador, acatando as opiniões do grupo familiar, ao invés de impor apenas as suas.
9)    Ter presença no lar, acompanhando de perto a vida dos filhos, por saber que o abandono moral é caminho para a delinqüência.
10)  Ter serenidade, evitando dar mostras de impaciência, irritação ou cólera.
11)  Ter firmeza, dando “sim” quando julgue que possa dá-lo, tendo a coragem de dizer e manter o “não”, sempre que isso se faça necessário.
12)  Ter espírito aberto, procurando estar sempre bem informado, para saber interpretar construtivamente os acontecimentos do mundo.
13)   Ter estabilidade emocional, evitando, quanto possível, as variações de humor e os inconvenientes que daí decorrem.
14)   Ter maturidade, aceitando as responsabilidades decorrentes de sua condição de chefe de família, especialmente as de pai.
15)   Ter prestígio, por seus exemplos de amor ao trabalho, hábitos sadios, civismo, gosto de ser útil ao próximo, etc.
Quantos pais são infelizes em seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração: depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.” (Allan Kardec, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. V, nº. 4)